nao foi selado e e de madeira. Vira muito lentamente, a morte. Quando souber que esta morto, entao comecarei o jejum.

— Como vais saber?

Desorientada, Arha voltou a hesitar.

— Saberei. Os… Os meus Senhores dir-me-ao.

— Estou a ver. E onde e a cova?

— No Subtumulo. Dei ordem a Manane que a abrisse por baixo da Pedra Macia.

Ela nao devia responder tao depressa, nem naquele tom idiota, apaziguador. Com Kossil, tinha de manter a sua dignidade.

— Vivo e num caixao de madeira. E coisa arriscada com um bruxo, senhora. Lembraste-te de lhe tapar a boca para ele nao poder recitar encantamentos? Ficou com as maos atadas? Eles sao capazes de tecer feiticos so com o mover de um dedo, mesmo quando lhes cortaram a lingua.

— A bruxaria dele nao e nada, sao so truques — retrucou a rapariga, erguendo a voz. — Esta enterrado e os meus Senhores esperam pela sua alma. E o resto nao e da tua conta, sacerdotisa!

Desta vez fora demasiado longe. Outros podiam ouvi-la. Penthe e um par de outras raparigas, Duby e a sacerdotisa Mebbeth, estavam todos a uma distancia a que podiam escutar. As raparigas eram todas ouvidos e Kossil estava ciente disso.

— Tudo o que aqui acontece e da minha conta, senhora. Tudo o que acontece neste reino e da conta do Rei-Deus, o Homem Imortal a cujo servico estou. Mesmo nos lugares subterraneos e nos coracoes dos humanos ele procura e ve, e ninguem podera vedar-lhe a entrada!

— Eu veda-la-ei. Nos Tumulos ninguem entra se Aqueles-que-nao-tem-Nome o proibirem. Existiam antes do teu Rei-Deus e hao de existir depois dele. Fala deles com suavidade, sacerdotisa. Nao chames sobre ti a sua vinganca, ou surgirao nos teus sonhos, entrarao nos recantos sombrios da tua mente e enlouqueceras.

Os olhos da rapariga flamejavam. O rosto de Kossil estava oculto, recolhido para dentro do capuz negro. Penthe e as outras observavam, temerosas e cativadas.

— Sao velhos — soou a voz de Kossil, nao alta, antes como um sibilante fio de som a desprender-se de dentro do capuz. — Sao velhos. O seu culto foi esquecido, salvo num unico lugar. O seu poder desvaneceu-se. Sao apenas sombras. Ja nao detem poder algum. Nao tentes atemorizar-me, o Devorada. Tu es a Primeira Sacerdotisa. Nao significa isso tambem que es a ultima?… Nao consegues iludir-me. Eu vejo o que vai no teu coracao. A escuridao nada consegue ocultar de mim. Tem cuidado contigo, Arha!

Voltou costas e seguiu caminho, como os seus passos macicos e deliberados a esmagarem as ervas com as suas estrelas de geada sob os pes pesados, calcados de sandalias, dirigindo-se para a casa de pilares brancos do Rei-Deus.

A rapariga permaneceu no mesmo lugar, como se pregada ao chao, ereta, um vulto delgado e escuro, no patio da frente da Casa Grande. Ninguem se movia, nada se movia, a nao ser Kossil, em toda a vasta paisagem de patio e templo, de colina e planicie desertica e montanha.

— Que os Poderes da Treva te consumam a alma, Kossil! — bradou Arha numa voz semelhante ao grito do falcao e, erguendo o braco com a mao rigidamente estendida, lancou a maldicao sobre as costas volumosas da sacerdotisa, precisamente quando ela punha o pe no primeiro degrau do seu templo. Kossil cambaleou, mas nao parou nem se voltou. Seguiu em frente e atravessou a porta do Rei-Deus.

Arha passou todo esse dia sentada no degrau mais baixo do Trono Vazio. Nao se atreveu a entrar no Labirinto e nao queria a companhia das outras sacerdotisas. Tomara-a uma opressao que a manteve ali, hora apos hora, no frio poeirento da grande sala. Olhava os pares de espessas e palidas colunas que se perdiam nas trevas, la no fundo distante da sala, e os raios de luz do dia que se infiltravam pelos buracos do teto, e as densas volutas do fumo de carvao a elevarem-se das tripodes de bronze, perto do Trono. Fazia desenhos com os ossinhos de rato na escada de marmore, a cabeca pendida, a mente ativa e, no entanto, entorpecida. «Quem sou eu?», perguntava a si propria e nao obtinha resposta.

Arrastando os pes, Manane aproximou-se, atravessando a sala por entre as duplas filas de colunas, quando a luz havia muito deixara de cintilar sobre a escuridao e o frio se tornara intenso. No rosto empastado de Manane havia uma grande tristeza. Deixou-se ficar a alguma distancia dela, as grandes maos pendendo aos lados do corpo. A bainha rasgada do seu manto acastanhado balancava-lhe junto a um calcanhar.

— Senhorazinha.

— O que e, Manane? — perguntou ela, olhando-o com um afeto baco.

— Pequenina, deixa-me fazer o que tu disseste… o que tu disseste que tinha sido feito. Ele tem de morrer, pequenina. Ele enfeiticou-te. A Kossil nao passa sem se vingar. Ela e velha e cruel e tu demasiado jovem. Nao tens forca suficiente.

— Ela nao pode causar-me mal.

— Se ela te matasse, ainda que fosse a vista de todos, as claras, nao ha ninguem em todo o Imperio que se atrevesse a puni-la. Ela e a Gra-Sacerdotisa do Rei-Deus e e o Rei-Deus que governa. Mas ela nao te matara as claras. Vai ser a ocultas, com veneno, de noite.

— Entao eu voltarei a nascer.

Manane retorceu as maos.

— Talvez ela nao te mate — sussurrou.

— Que queres tu dizer?

— Ela podia fechar-te numa sala no… la em baixo… Como tu lhe fizeste a ele. E ficarias viva talvez durante anos e anos. Anos… E nao nasceria Sacerdotisa nenhuma porque tu nao estarias morta. Mas tambem nao haveria Sacerdotisa dos Tumulos e as dancas da lua nova nao seriam dancadas, os sacrificios nao seriam feitos, o sangue nao seria derramado e o culto dos Senhores da Treva podia ser esquecido, para sempre. Ela e o Senhor que ela serve bem gostariam que assim fosse.

— Mas eles libertar-me-iam, Manane.

— Nao enquanto estiverem irados contra ti, senhorazinha, — segredou Manane.

— Irados?…

— Por causa dele… O sacrilegio que nao foi remido. Ai, pequenina, pequenina! Eles nao perdoam!

Ela permaneceu sentada na poeira do degrau de baixo, deixando pender a cabeca. Olhou para uma coisa minuscula que segurava na palma da mao, a diminuta caveira de um rato. Os mochos nas traves sobre o Trono agitaram-se ligeiramente. Ia escurecendo a aproximacao da noite.

— Nao descas ao Labirinto esta noite — aconselhou Manane muito baixinho. — Vai para a tua casa e dorme. De manha vai ter com Kossil e diz-lhe que retiras dela a maldicao. E isso bastara. Nao precisas de te afligir. Eu mostrar-lhe-ei a prova.

— Prova?

— De que o bruxo esta morto.

Arha permaneceu muito quieta. Lentamente, fechou a mao e a fragil caveira estalou e desfez-se. Quando abriu a mao, apenas havia nela esquirolas de osso e po.

— Nao — disse. E varreu a poeira da mao.

— Mas ele tem de morrer. Ele lancou um feitico sobre ti. Estas perdida, Arha!

— Ele nao lancou nenhum feitico sobre mim. Tu es velho e medroso, Manane. Deixas-te assustar por mulheres velhas. Como julgas tu que chegarias junto dele e o matarias e arranjarias a tua «prova»? Conheces o caminho que leva ate ao Grande Tesouro, aquele que percorreste no escuro a noite passada? Es capaz de contar as voltas e chegar aos degraus? E depois ao poco e a porta? Podes abrir essa porta?… Ah, pobre e velho Manane, o teu entendimento esta todo perro. Kossil assustou-te. Ora vai la para a Casa Pequena, dorme e esquece tudo isto. Para de me atormentar com tanta conversa acerca de morte… Mais logo eu vou. Anda, desanda daqui, meu velho tonto.

A rapariga erguera-se e, suavemente, empurrou o largo peito de Manane, dando-lhe palmadinhas e impelindo-o para que se fosse.

— Va. Boa noite. Boa noite!

Ele virou costas, com relutancia e apreensao, mas obediente, e la se arrastou ao longo da sala, sob as colunas e o teto em ruinas. Ela ficou a ve-lo ir embora.

Algum tempo depois de o eunuco ter saido, a rapariga virou-se, deu a volta ao dossel do Trono e desapareceu no negrume por detras dele.

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