que fazedores de tempo e mestres do mar exercem sobre o vento e a agua eram artes ja conhecidas para os seus alunos, mas foi ele que lhes fez ver por que razao o verdadeiro mago so usa tais encantamentos se for absolutamente necessario, dado que invocar essas forcas terrenas equivale a alterar a terra de que fazem parte.
— A chuva em Roke pode corresponder a uma seca em Osskil — disse ele —, e uma calmaria na Estrema Leste pode ser tempestade e destruicao no Ocidente, se nao soubermos o que estamos a fazer.
Quanto a chamar coisas reais e pessoas vivas, bem como fazer erguer os espiritos dos mortos e as invocacoes do Oculto, encantamentos essas que sao o auge da arte do Invocador e do poder do mago, quase nem se referiu a elas. Por uma ou duas vezes, Gued tentou leva-lo a falar um pouco de tais misterios, mas o Mestre permaneceu silencioso, olhando-o longa e lugubremente, ate que Gued se sentiu pouco a vontade e parou de insistir.
Na verdade, por vezes sentia-se inquieto mesmo ao trabalhar encantamentos tao singelos como as que o Invocador lhe ensinava. Havia certas runas em certas paginas do
No segundo mes daquele Verao, toda a escola se voltou a reunir na Casa Grande a fim de celebrar a Noite da Lua e a Longa Danca, que nesse ano calharam juntas como um so festival de duas noites, o que acontece apenas uma vez em cada cinquenta e dois anos. Durante toda a primeira noite, a mais curta de lua cheia do ano, ouviram-se flautas tocando nos campos e as estreitas ruas de Thwil estavam cheias de tambores e archotes, com o som das cancoes a espalhar-se para o largo, por sobre as aguas enluaradas da Baia de Roke. Ao nascer do Sol, na manha seguinte, os Chantres de Roke comecaram a cantar o longo
Acabada a Longa Danca, a maioria das pessoas dormiu durante todo o dia seguinte, juntando-se todos ao anoitecer para comer e beber. Havia um grupo de jovens, aprendizes e magicos, que trouxera o jantar do refeitorio a fim de fazer um festim privado num dos patios da Casa Grande. Vetch, Jaspe e Gued faziam parte do grupo, mais outros seis ou sete, e ainda alguns rapazes libertos por um breve tempo da Torre Isolada, pois este festival ate conseguira atrair Kurremkarmerruk. Estavam todos a comer, a rir e, por simples diversao, a fazer tais truques que teriam maravilhado a corte de qualquer rei. Um dos rapazes iluminara o patio com uma centena de estrelas de fogo-fatuo, coloridas como pedras preciosas, que iam balancando, entrelacadas numa lenta progressao, entre eles e as estrelas reais. Um par de jovens jogava
Finalmente, veio aterrar lentamente e de pe mesmo ao lado de Jaspe e este, que nunca se rira abertamente, afastou-se, dizendo:
— O Gaviao que nao consegue voar…
— Sera o jaspe uma pedra preciosa? — retorquiu Gued, arreganhando os dentes. — O Joia entre os feiticeiros, o Gema de Havnor, derrama o teu brilho sobre nos!
O rapaz que pusera as luzes a dancar fez descer uma delas e po-la a dancar e a brilhar ao redor da cabeca de Jaspe. Com bem menos fleuma que o habitual, enrugando a testa, Jaspe afastou a luz e, com um gesto, apagou-a.
— Estou farto de rapazes e barulho e idiotices — disse.
— Estas a entrar na meia-idade, homem — comentou Vetch la do alto.
— Se o que queres e silencio e sombra — acrescentou um dos rapazes mais jovens —, podes sempre optar pela Torre.
E Gued perguntou-lhe:
— O que e entao que queres, Jaspe?
— Quero a companhia dos meus iguais — disse Jaspe. — Anda dai, Vetch. Deixa os aprendizes com os seus brinquedos.
Gued voltou-se para encarar Jaspe.
— E o que tem os magicos que os aprendizes nao tenham? — inquiriu. A sua voz era tranquila, mas todos os outros rapazes ficaram subitamente muito quietos porque, no tom em que falara, tal como no de Jaspe, o despeito entre eles soava evidente e claro como a lamina de uma espada ao sair da bainha.
— Poder — disse Jaspe.
— Sou capaz de igualar o teu poder, ato por ato.
— Estas a desafiar-me?
— Estou a desafiar-te.
Vetch deixara-se cair ate ao solo e veio interpor-se entre ambos, de rosto severo.
— Duelos de magia estao nos interditos, como muito bem sabem. Paremos com isto!
Tanto Gued como Jaspe guardaram o silencio, pois era verdade que conheciam a lei de Roke. E sabiam tambem que Vetch era movido por amor, e eles proprios por odio. E no entanto, a sua ira fora contrariada, mas nao acalmada. E por fim, desviando-se um pouco para o lado como se pretendesse ser ouvido apenas por Vetch, Jaspe falou, arvorando o seu frio sorriso:
— Acho preferivel recordares melhor ao teu amigo cabreiro a lei que o protege. Ele parece estar amuado. Sera que acreditou mesmo que eu ia aceitar um desafio dele? De um tipo que cheira a cabras, um aprendiz que nem conhece a Primeira Mudanca?
— Jaspe — disse Gued —, que sabes tu daquilo que eu sei? Durante um instante, sem que alguem tivesse dito alguma palavra, Gued desapareceu-lhes da vista e, onde ele estivera, planou um grande falcao, abrindo o bico adunco para gritar. Isto durou apenas um instante e logo Gued voltou a surgir a luz tremula dos archotes, fitando Jaspe sombriamente.
Jaspe, atonito, dera um passo atras. Mas logo encolheu os ombros e pronunciou uma so palavra:
— Ilusao.
Os outros sussurraram entre si, mas Vetch disse em voz alta:
— Aquilo nao foi ilusao alguma. Foi mudanca legitima. E basta. Jaspe, escuta…
— O bastante para mostrar que ele deitou uma olhadela ao
