e odio. Sera de admirar que o resultado tenha sido ruinoso? Invocaste um espirito dos mortos, mas com ele veio um dos Poderes da nao-vida. Sem que o chamassem, veio de um lugar onde nao existem nomes. Malefico, o seu desejo e praticar maleficios atraves de ti. O poder que tiveste para o chamar da-lhe poder sobre ti. Estais ligados. E a sombra da tua arrogancia, a sombra da tua ignorancia, a sombra que projetas. Tera uma sombra nome?
Gued permaneceu em silencio, debil e macilento. Por fim, disse:
— Mais me valera ter morrido.
— E quem es tu para ajuizar de tal coisa, tu por quem Nemmerle deu a vida?… Aqui estas a salvo. Aqui viveras e continuaras a tua aprendizagem. Dizem-me que es habil. Vai e faz o teu trabalho. Faca-o bem. E tudo o que podes fazer.
E assim terminou Guencher, desaparecendo instantaneamente, como e costume dos magos. A fonte jorrava a luz do Sol e Gued ficou-se a olha-la por algum tempo, ouvindo a sua voz, pensando em Nemmerle. Certa vez, naquele patio, ele sentira ser uma palavra dita pela luz do Sol. Agora tambem a escuridao falara. Uma palavra que nao podia ser abolida.
Deixou o patio e dirigiu-se para o seu antigo quarto na Torre Sul, que tinham mantido vazio para ele. Ali permaneceu sozinho. Quando o gongo soou para a ceia obedeceu ao chamado, mas mal falou com os outros rapazes a Mesa Grande, nem para eles ergueu o rosto, mesmo os que o acolhiam mais gentilmente. Assim, passado um ou dois dias, acabaram por deixa-lo so. E estar so era o que desejava, pois temia o mal que poderia fazer ou dizer involuntariamente.
Nem Vetch nem Jaspe ali estavam e Gued nao perguntou por eles. Os rapazes que ele encabecara e comandara estavam agora muito a sua frente por causa dos meses que perdera, pelo que na Primavera e no Verao desse ano estudou com rapazes mais jovens que ele. E tambem nao brilhou entre esses porque as palavras de qualquer encantamento, nem que fosse o mais simples sortilegio de ilusao, saiam-lhe hesitantes da boca e as suas maos vacilavam nos movimentos da arte.
No Outono deveria ir mais uma vez para a Torre Isolada, a estudar com o Mestre dos Nomes. Essa tarefa, que em tempos abominara, agradava-lhe agora, porque o silencio era o que buscava, bem como a longa aprendizagem em que nao havia encantamentos a tecer e onde o poder que ele sabia residir ainda em si nao seria chamado a exercer-se.
Na noite anterior a sua partida para a Torre, veio ao seu quarto um visitante, alguem que envergava um manto de viagem castanho e trazia um bordao com ponteira de ferro. Gued pos-se de pe a vista do bordao do feiticeiro.
— Gaviao…
Ao som daquela voz, Gued ergueu os olhos. Era Vetch quem ali estava, tao solidamente inabalavel como sempre, o rosto negro e rude mais velho agora, mas com o mesmo imutavel sorriso. No seu ombro aninhava-se um animalzinho, de pelo malhado e olhos brilhantes.
— Ele ficou comigo durante a tua doenca e agora tenho pena de me separar dele. E ainda mais de me separar de ti, Gaviao. Mas vou voltar para casa. Va la, Hoeg, volta para o teu verdadeiro dono!
Vetch deu uma palmadinha no otaque e colocou-o no chao. O animal dirigiu-se para o catre de Gued, onde se sentou, comecando a lavar o pelo com a sua lingua castanha, semelhante a uma pequena folha seca. Vetch riu, mas Gued nao conseguiu sequer sorrir. Inclinou-se para ocultar o rosto, fazendo festas ao otaque.
— Julguei que nao quererias ver-me, Vetch — disse ele. Com isto nao pretendia fazer qualquer censura, mas Vetch respondeu:
— Nao podia vir ver-te. O Mestre das Ervas proibiu-me. E desde o Inverno que tenho estado com o Mestre no Bosque, tambem eu fechado. Nao era livre, ate que tivesse merecido o meu bordao. Ouve. Quando tu tambem fores livre, vem ate a Estrema Leste. Ficarei a tua espera. As vilazinhas sao acolhedoras e os feiticeiros bem recebidos.
— Livre… — murmurou Gued, e encolheu ligeiramente os ombros, tentando sorrir.
Vetch olhou-o, nao precisamente como costumara olhar, mas com igual amor e, talvez, mais como feiticeiro. Suavemente, disse:
— Nao ficaras para sempre preso a Roke.
— Bem… Pensei que talvez pudesse trabalhar com o Mestre na Torre, ser um daqueles que procuram nos livros e nas estrelas os nomes perdidos e, desse modo, nao… nao fazer mais nenhum mal, mesmo sem fazer muito bem…
— Talvez — respondeu Vetch. — Nao sou vidente, mas a tua frente vejo, nao salas e livros, mas mares longinquos, e o fogo de dragoes, e as torres de cidades, e todas essas coisas que um falcao ve quando voa longe e alto.
— E atras de mim… O que ves atras de mim? — perguntou Gued, ao mesmo tempo que se erguia, fazendo com que a luz que brilhava por cima e no meio deles lancasse a sua sombra sobre a parede e o chao atras dele. Depois, voltando o rosto para um lado e com voz titubeante, acrescentou: — Mas diz-me para onde vais, e o que iras fazer.
— Como te disse, vou de volta a casa, para ver os meus irmaos e a irma de quem me ouviste falar. Quando a deixei era uma criancinha e agora em breve recebera o seu Nome… E estranho pensar nisso! E entao vou arranjar trabalho como feiticeiro la pelas ilhas pequenas. Ah, bem gostaria de ficar a conversar contigo, mas nao posso, o meu navio parte esta noite e a mare ja esta a mudar. Gaviao, se alguma vez o teu caminho for para leste, vem ter comigo. E se alguma vez precisares de mim, manda-me buscar, chama-me pelo meu nome: Estarriol.
Perante isto, Gued ergueu o rosto marcado pelas cicatrizes, cruzando o olhar com o do amigo.
— Estarriol — disse —, o meu nome e Gued.
Depois, calmamente, despediram-se um do outro e Vetch, voltando costas, desceu as escadas, percorreu a entrada de pedra e deixou Roke.
Por um momento, Gued quedou-se imovel, como alguem que acabou de receber importantes noticias e tem de abrir o espirito para melhor as acolher. Grande oferta lhe fizera Vetch, o conhecimento do seu verdadeiro nome.
Ninguem conhece o nome-verdadeiro de um homem, para alem dele proprio e daquele que lho conferiu. Podera eventualmente decidir dize-lo a um irmao, a mulher, a um amigo, mas mesmo esses poucos nunca o usarao onde qualquer terceira pessoa o possa ouvir. Em frente de outras pessoas, chama-lo-ao, tal como essas outras pessoas, pelo seu nome-de-usar, a sua alcunha — um nome como Gaviao ou Vetch. Ou Oguion, que significa «pinha de abeto». Se os homens simples ocultam o seu nome-verdadeiro de toda a gente menos uns poucos que amam e em quem totalmente confiam, muito mais o farao os feiticeiros, porque mais perigosos e perigando mais. Quem sabe o nome de um homem tem a vida desse homem a seu cuidado. Assim, a Gued, que perdera a fe em si proprio, Vetch fizera essa oferta que so um amigo pode fazer, a prova de uma confianca inabalada e inabalavel.
Gued sentou-se no seu catre e deixou que o globo de fogo-fatuo se extinguisse, libertando ao apagar-se um tenue cheiro a gas dos pantanos. Acariciou o otaque, que se espreguicou e estendeu confortavelmente, adormecendo-lhe em cima do joelho como se nunca tivesse dormido noutro lugar. A Casa Grande estava em silencio. Veio ao espirito de Gued a recordacao de que aquela era a vespera da sua propria Passagem, o dia em que Oguion lhe dera o seu nome. Desde entao quatro anos se tinham passado. Recordou o frio da nascente de montanha atraves da qual caminhara nu e sem nome. Dai veio a recordar outros pegos brilhantes do Rio Ar, onde costumava nadar; e a aldeia de Dez Amieiros na base das grandes florestas da montanha; e as sombras matinais ao longo da poeirenta rua da aldeia, o fogo a altear-se ao sopro dos foles na forja do bronzeiro, numa tarde de Inverno, a cabana escura e fragrante da bruxa onde o ar era pesado de fumo e sortilegios. Ha quanto tempo nao pensava em nada disso. E agora tudo voltava ao seu espirito, naquela noite em que fazia dezessete anos de vida. Todos os anos e lugares da sua breve e fragmentada vida chegaram ao alcance da sua mente e de novo se conjugaram num todo. E finalmente, apos aquele longo, amargo e desperdicado tempo, soube uma vez mais quem era e onde estava.
Mas onde deveria ir nos anos seguintes, isso nao podia ele distinguir. E temia ve-lo.
Na manha seguinte partiu para a travessia da ilha, com o otaque uma vez mais aninhado no seu ombro como costumava. Desta vez demorou tres dias, e nao dois, a caminhada ate a Torre Isolada e os proprios ossos lhe doiam quando chegou a vista da Torre, erguendo-se acima dos mares que ferviam e silvavam no cabo setentrional. La dentro, era tao escuro como ele recordava, frio como ele recordava, e Kurremkarmerruk estava,
