Po-lo sobre o ombro, nas pregas do capuz, e foi ai que o animal viajou. Por vezes, durante o dia, saltava para o solo e escapava-se como uma seta para os bosques, mas voltava sempre para junto de Gued, uma das vezes com um rato do campo que cacara. Gued riu-se e disse-lhe que comesse o rato, porque ele estava a jejuar, sendo aquela a noite do Festival do Regresso-do-Sol. E foi assim que ele passou, no crepusculo molhado, o Cabeco de Roke e viu brilhantes fogos-fatuos movendo-se rapidos sob a chuva acima dos telhados da Casa Grande, onde finalmente entrou e foi acolhido pelos seus Mestres e companheiros, no grande salao iluminado pelo fogo.
Foi como um regresso ao lar para Gued, que nao tinha um lar onde alguma vez regressar. Sentiu-se feliz ao ver tantos rostos seus conhecidos, mais feliz ainda quando Vetch se adiantou para o acolher, com um grande sorriso no rosto escuro. Durante aquele ano, sentira a falta do amigo como so agora se dava conta. Vetch recebera nesse Outono o titulo de Magico e nao era ja um aprendiz, mas isso nao ergueu qualquer barreira entre eles. Puseram-se de imediato a conversar e pareceu a Gued ter dito mais a Vetch nessa primeira hora que tudo o que dissera durante todo o longo ano na Torre Isolada.
O otaque continuava empoleirado no seu ombro, aninhando-se na dobra do capuz, quando se sentaram a jantar nas longas mesas postas para o festival no Salao da Lareira. Vetch maravilhou-se com a criaturinha e chegou a estender a mao para a acariciar, mas o otaque, com um estalido dos dentes afiados, tentou morde-lo. Vetch riu-se.
— Costuma dizer-se, Gaviao, que aquele a quem um animal selvagem se afeicoa e um homem para o qual os Velhos Poderes da pedra e da nascente falarao com voz humana.
— E diz-se que os feiticeiros gontianos mantem muitas vezes familiares[1] — acrescentou Jaspe, que estava sentado do outro lado de Vetch. — O Senhor Nemmerle tem o seu corvo e dizem as cancoes que o Mago Vermelho de Ark trazia um javali preso por uma corrente de ouro. Mas nunca ouvi falar de nenhum feiticeiro que andasse com um rato no capuz!
Perante isto, todos riram e Gued riu com os outros. Era uma noite jovial e ele estava contente de ali se encontrar, no calor e na diversao, observando o festival com os seus companheiros. Porem, como tudo o que Jaspe lhe dizia, a facecia fe-lo ranger os dentes.
Nessa noite, o Senhor de O era convidado da escola, sendo ele proprio um magico de renome. Fora pupilo do Arquimago e voltava por vezes a Roke por ocasiao do Festival de Inverno ou, no Verao, para a Longa Danca. Com ele vinha a sua dama, elegante e jovem, brilhante como uma moeda acabada de cunhar, o seu cabelo negro coroado de opalas. Era muito raro que qualquer mulher tomasse assento nas salas da Casa Grande e alguns dos Mestres mais velhos olhavam-na de lado, desaprovadoramente. Mas os homens mais jovens escancaravam os olhos para ela.
— Para uma mulher assim — segredou Vetch para Gued — bem eu teceria vastas encantamentos…
Depois suspirou e riu-se.
— Nao passa de uma mulher — replicou Gued.
— A princesa Elfarran nao passava de uma mulher — contrapos Vetch —, e por ela toda a Enlad foi devastada, o Heroi-Mago de Havnor morreu e a Ilha de Solea afundou-se nos mares.
— Historias velhas — disse Gued. Mas entao tambem ele comecou a olhar a Senhora de O, perguntando-se se aquela seria, realmente, essa mortal beleza de que o velhos contos falam.
O Mestre Chantre cantara o
— Vem conosco, vem viver conosco em O-tokne… Nao podemos leva-lo, meu Senhor? — perguntou, infantilmente, ao seu severo esposo. Mas Jaspe disse apenas:
— Quando eu tiver aprendido talentos dignos dos meus Mestres nesta escola e dignos do vosso louvor, Senhora, entao irei de boa vontade e de boa vontade vos servirei.
E foi assim que Jaspe agradou a todos que ali estavam, a excecao de Gued. Juntou a sua as vozes que exprimiam louvores, mas nao o seu coracao. Para si proprio, com amarga inveja, disse: «Eu teria feito melhor.» E, depois disso, toda a alegria da festa ficou ensombrada para ele.
4. A LIBERTACAO DA SOMBRA
Nessa Primavera, Gued poucas vezes viu Vetch ou Jaspe, pois estes, como feiticeiros que eram, estudavam agora com o Mestre das Configuracoes no segredo do Bosque Imanente, em que nenhum aprendiz podia por o pe. Gued permaneceu na Casa Grande, trabalhando com os Mestres em todos os talentos praticados pelos magicos, aqueles que fazem magia mas nao trazem bordao: erguer o vento, fazer o tempo, encontrar e ligar, e as artes dos que trabalham feiticos e dos que criam feiticos, e dos contadores, dos chantres, dos curandeiros e dos herbanarios. A noite, sozinho na sua cela de dormir, com uma pequena bola de fogo-fatuo a arder sobre o livro, fazendo as vezes de uma candeia ou vela, estudava as Runas Adiantadas e as Runas de Ea que se utilizam nas Grandes Encantamentos. Todas estas artes lhe eram faceis de aprender e corria entre os estudantes o rumor de que este mestre ou aquele teriam dito que o rapaz gontiano era o aluno mais vivo que alguma vez estivera em Roke e comecaram a ouvir-se historias a respeito do otaque, do qual se dizia ser um espirito disfarcado que segredava sabedoria ao ouvido de Gued, e havia ate quem afirmasse que o corvo do Arquimago acolhera Gued a sua chegada como o «futuro Arquimago». Acreditando ou nao nessas historias, gostando ou nao de Gued, o certo e que, na maioria, os companheiros admiravam-no e estavam sempre ansiosos por segui-lo nas raras ocasioes em que ele se animava e se juntava a eles para conduzir os seus jogos nas noites cada vez mais longas da Primavera. Porem, na maior parte do tempo, todo ele era trabalho, orgulho e severidade, mantendo-se a parte dos outros. Entre todos eles, e na ausencia de Vetch, nao tinha amigo algum e nunca sentira que lhe faltasse um.
Tinha quinze anos, muito novo ainda para aprender qualquer das Grandes Artes do feiticeiro ou mago, aquele que traz bordao. Mas era tao rapido a aprender todas as artes de ilusao que o Mestre da Mudanca, ele proprio ainda muito jovem, em breve comecou a ensina-lo separadamente dos outros discipulos e a falar-lhe dos verdadeiros Encantamentos de Dar Forma. Explicou que, para uma coisa ser realmente transformada noutra, deve receber novo nome durante tanto tempo quanto a duracao do encantamento, e contou-lhe como isso afeta os nomes e a natureza das coisas que rodeiam a coisa transformada. Referiu os perigos da mudanca, sobretudo quando o feiticeiro muda a sua propria forma e e susceptivel de se ver aprisionado no seu proprio encantamento. Pouco a pouco, levado pela segura compreensao do rapaz, o jovem Mestre comecou a fazer mais do que meramente lhe falar destes misterios. Primeiro uma, logo outra, foi-lhe ensinando os Grandes Encantamentos de Mudanca e deu-lhe a estudar o
Gued trabalhava agora tambem com o Mestre da Invocacao, mas este era um homem austero, idoso e endurecido pela profunda e sombria feiticaria que ensinava. Nada tinha a ver com ilusao, mas apenas com verdadeira magia, a invocacao de energias como a luz e o calor, e a forca que atrai o iman, bem como as forcas que o homem conhece como peso, forma, cor e som. Poderes reais, extraidos das imensas, incalculaveis energias do universo, que nenhum encantamento ou uso humano poderia alguma vez exaurir ou desequilibrar. O imperio
