conseguiria perder-se ainda mais definitivamente. E imaginou isto tao vividamente que parou, pensando ter ouvido o chamamento de uma voz distante. Mas nao havia som algum. E ela nao ia perder-se. Era muito cuidadosa e aquele era o seu lugar, o seu proprio dominio. Os poderes da treva, Aqueles-que-nao-tem-Nome, guiar-lhe-iam os passos ali, tal como fariam perder-se qualquer outro mortal que se atrevesse a entrar no Labirinto dos Tumulos.

Nao foi muito longe dessa primeira vez, mas o suficiente para que a estranha e amarga, mas mesmo assim agradavel, certeza da extrema solidao e independencia, ali dentro, se desenvolvesse fortemente nela, atraindo-a uma e outra vez, e de cada uma mais para o interior do Labirinto. Chegou a Sala Pintada e aos Seis Caminhos, percorreu o longo Tunel Exterior e penetrou no estranho emaranhado que conduzia a Sala dos Ossos.

— Quando foi construido o Labirinto? — perguntou ela a Thar.

E a severa e esguia sacerdotisa respondeu:

— Senhora, nao sei. Ninguem sabe.

— Porque foi feito?

— Para ocultar os tesouros dos Tumulos e como punicao para aqueles que pretendessem roubar esses tesouros.

— Todos os tesouros que ate agora vi estao nas camaras por tras do Trono e nas caves por baixo dele. O que se oculta no Labirinto?

— Um tesouro imensamente maior e mais antigo. Desejarias ve-lo?

— Sim.

— Ninguem, a nao ser tu, pode entrar na Sala do Tesouro dos Tumulos. Podes levar os teus servos para o Labirinto, mas nao para dentro da Sala do Tesouro. Ainda que fosse Manane a entrar ai, a ira das trevas despertaria e ele nao sairia vivo do Labirinto. Ali tens de ir sozinha, para sempre. Eu sei onde se encontra o Grande Tesouro. Ensinaste-me o caminho, quinze anos atras, antes de morreres, para que eu me recordasse e te dissesse quando regressasses. Posso descrever-te o caminho que deves seguir no Labirinto depois da Sala Pintada. E a chave para a Sala do Tesouro e essa de prata que tens na argola, com a figura de um dragao esculpida no punho. Mas tens de ir sozinha.

— Ensina-me o caminho.

Thar ensinou-lho e ela aprendeu, tal como aprendia tudo o que lhe era ensinado. Mas nao foi ver o Grande Tesouro dos Tumulos. Um impreciso sentimento de que a sua vontade ou o seu saber nao eram ainda completos a reteve. Ou talvez fosse por desejar manter algo de reserva, algo por que esperar, que projetasse algum encanto sobre aqueles infindaveis tuneis que atravessavam a escuridao e terminavam sempre em paredes nuas ou em qualquer cela poeirenta e vazia. Iria esperar ainda algum tempo, antes de ver os seus tesouros.

Ao fim e ao cabo, nao os tinha ela ja visto antes?

Mas ainda lhe causava estranheza quando Thar ou Kossil lhe falavam de coisas que ela fizera ou vira antes de morrer. Sabia que morrera verdadeiramente e que renascera num novo corpo a hora da morte do seu antigo corpo. E nao apenas uma vez, quinze anos antes, mas cinquenta antes, e antes dessa vez, e antes dessa, ao longo dos anos e das centenas de anos, ate ao proprio principio dos tempos, quando o Labirinto fora escavado, as Pedras erigidas e a primeira Gra-Sacerdotisa d’Aqueles-que-nao-tem-Nome vivera naquele Lugar e dancara perante o Trono Vazio. Eram todas uma e mesma, todas essas vidas e a sua. Ela era a primeira Gra-Sacerdotisa. Todos os seres humanos renasciam constantemente, mas so ela, Arha, constantemente renascia como ela propria. Cem vezes aprendera os caminhos e voltas do Labirinto e, por fim, chegara a ultima camara oculta.

Por vezes julgava recordar. Os escuros lugares sob a colina eram-lhe tao familiares como se nao fossem apenas o seu dominio, mas tambem o seu lar. Quando aspirava os fumos entorpecentes para dancar na lua nova, a cabeca tornava-se leve e o seu corpo deixava de lhe pertencer. Entao dancava atraves dos seculos, de pes descalcos e envolta em vestes negras, e sabia que a danca nunca cessara.

Mas, ainda assim, havia sempre aquela estranheza quando Thar lhe dizia «Disseste-me antes de morrer…»

Certa vez, perguntou:

— Quem eram aqueles homens que quiseram vir roubar os Tumulos? Alguma vez algum o conseguiu?

A ideia de haver ladroes afigurara-se-lhe emocionante mas improvavel. Como poderiam chegar secretamente ao Lugar? Os peregrinos eram muito poucos, menos ainda que os prisioneiros. De vez em quando, novas novicas ou escravos eram enviados de templos menos importantes dos Quatro Territorios ou aparecia um pequeno grupo a trazer alguma oferta de ouro ou incenso raro a um dos templos. E era tudo. Ninguem ali ia por acaso, nem para vender e comprar, nem para ver o panorama, nem para roubar. Ninguem ali ia, a nao ser que tivesse ordens para o fazer. Arha nem sequer sabia qual fosse a distancia ate a vila mais proxima, vinte milhas ou mais, e a vila mais proxima era bem pequena. O Lugar estava defendido pelo vazio e pela solidao. Quem quer que atravessasse o deserto que o rodeava, pensou ela, teria tanta possibilidade de passar despercebido como uma ovelha negra num campo de neve.

Estava com Thar e Kossil, com quem muito do seu tempo era agora passado quando nao se encontrava na Casa Pequena ou sozinha, sob a colina. Era uma noite de Abril, tempestuosa e fria. Estavam sentadas junto a um pequeno fogo de salva, a lareira da divisao que ficava por tras do templo do Rei-Deus, o quarto de Kossil. Do lado de fora da porta, no atrio, Manane e Duby disputavam um jogo com pauzinhos e fichas, atirando ao ar um feixe de pauzinhos e apanhando a maior quantidade possivel nas costas da mao. Secretamente, no patio interior da Casa Pequena, Manane e Arha ainda o jogavam as vezes. O ruido de pauzinhos a cair, as roucas interjeicoes de triunfo ou derrota, o ligeiro estalar do fogo, eram os unicos sons que se ouviam quando entre as tres sacerdotisas se fazia silencio. Ao seu redor, para alem das paredes, estendia-se o profundo silencio do deserto noturno. De vez em quando, chegava ate elas o tamborilar de esparsas mas fortes bategas de agua.

— Muitos vieram para roubar os Tumulos, ha muito tempo. Mas nunca nenhum o conseguiu — afirmou Thar.

Taciturna como era, gostava no entanto de, uma vez por outra, contar uma historia, e frequentemente o fazia como parte da educacao de Arha. Pelo seu aspecto, aquela devia ser uma noite em que seria possivel arrancar-lhe uma historia.

— Como podia algum homem atrever-se?

— Eles atreveram-se — esbravejou Kossil. — Eram bruxos, gente de magia das Terras Interiores. Isso foi antes de os Reis-Deuses governarem as Terras de Kargad. Nesse tempo nao eramos tao fortes como hoje. Os feiticeiros costumavam vir navegando de ocidente ate Karego-At e Atuan, para saquear as povoacoes costeiras, pilhar as quintas e chegando mesmo a entrar na Cidade Sagrada de Auabath. Vinham para matar dragoes, diziam, mas ficavam para roubar vilas e templos.

— E os seus grandes herois vinham ate ao meio de nos para experimentar as suas espadas — interpos Thar — e lancar os seus impios feiticos. Um deles, um grande feiticeiro e senhor de dragoes, o maior entre todos eles, veio aqui encontrar a derrota. Foi ha muito, muito tempo, mas a historia e ainda recordada e nao apenas aqui. O magico chamava-se Erreth-Akbe e, no Ocidente, era nao so feiticeiro como tambem rei. Veio ate as nossas terras e, em Auabath, reuniu-se com certos senhores rebeldes karguianos e lutou pelo dominio da cidade contra o Grao-Sacerdote do Templo Interior dos Irmaos-Deuses. Por longo tempo combateram, a magia do homem contra o faiscar dos deuses, e o templo foi-se destruindo ao redor deles. Por fim, o Grao-Sacerdote quebrou a vara dos bruxedos do magico, partiu em dois o seu amuleto do poder e derrotou-o. O feiticeiro escapou da cidade e das terras de Kargad e fugiu atraves de toda Terramar ate o mais longe possivel para ocidente. Mas ai um dragao tirou-lhe a vida, porque ele perdera o seu poder. E desde esse dia o poder e a autoridade das Terras Interiores nao mais cessou de diminuir. Ora o Grao-Sacerdote chamava-se Intathin e foi o primeiro da casa de Tarb, essa linhagem de que, apos o cumprimento das profecias e a passagem dos seculos, descenderam os Sacerdotes-Reis de Karego-At e, deles, os Reis-Deuses de toda Kargad. E assim foi que, desde os dias de Intathin, o poder e o dominio dos territorios karguianos nao mais cessaram de aumentar. Aqueles que vieram para roubar os Tumulos eram bruxos, sempre tentando recuperar o amuleto quebrado de Erreth-Akbe. Mas continua aqui, onde o Grao-Sacerdote o colocou para que fosse guardado. E tambem os seus ossos…

E Thar apontou para o chao a seus pes.

— Metade esta aqui — acrescentou Kossil.

— E a outra metade perdida para sempre.

— Perdida como? — perguntou Arha.

— Uma metade, que ficou na mao de Intathin, foi por ele dada ao Tesouro dos Tumulos, onde ficaria em

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