Depois de ultrapassada a sombria agitacao dos Ritos do Luto, Arha deu em evitar Kossil. Logo que cumpridos os rituais e as longas tarefas do dia, dirigia-se para a sua morada solitaria. E, sempre que tinha tempo, ia ate a camara por detras do Trono, abria o alcapao e descia para o seio da escuridao. Fosse de dia ou de noite, porque isso ali nao fazia qualquer diferenca, prosseguia na sistematica exploracao do seu dominio. O Subtumulo, com a sua grande carga sagrada, era vedado em absoluto a qualquer ser que nao fosse uma sacerdotisa e os seus eunucos de maior confianca. Qualquer outra pessoa, homem ou mulher, que se aventurasse a descer ali seria indubitavelmente ferido de morte pela ira d’Aqueles-que-nao-tem-Nome. Mas entre todas as regras que aprendera, nenhuma havia que proibisse a entrada no Labirinto. Nao era necessario. Ali so se podia chegar atraves do Subtumulo. E, de qualquer modo, sera que as moscas precisam de regras para nao entrarem numa teia de aranha?

Assim, levou Manane muitas vezes ate as zonas perifericas do Labirinto, para que ele aprendesse os caminhos. O eunuco nao tinha a menor vontade de ali entrar mas, como sempre, obedecia-lhe. Assegurou pessoalmente que Duby e Uahto, eunucos de Kossil, aprendessem o caminho ate a Sala das Correntes e de saida do Subtumulo, mas nao mais que isso. Nunca os levou para dentro do Labirinto. Nao queria que mais ninguem, para alem de Manane, que lhe era fiel em absoluto, conhecesse os caminhos secretos. Porque eram dela, so dela, para sempre. Comecara a exploracao total do Labirinto. Durante todo o Outono, passou muitos dias a caminhar pelos infindaveis corredores e, mesmo assim, ainda havia zonas deles onde nunca chegara. Havia um cansaco inerente aquele tracar da vasta e insensata teia de caminhos. As pernas cansavam-se, a mente entediava-se, naquele incessante verificar de voltas e passagens que ficavam para tras ou ainda estavam para vir. Era maravilhoso, estabelecido na rocha solida do subsolo como as ruas de uma grande cidade. Mas fora concebido para cansar e confundir os mortais que por ele caminhassem e mesmo as suas sacerdotisas tinham de acabar por sentir que nada mais era que uma gigantesca armadilha.

E assim, cada vez mais a medida que o Inverno avancava, Arha foi deixando a sua grande exploracao, trocando-a pela da propria Morada, pelos altares, as alcovas atras e debaixo dos altares, as camaras cheias de arcas e caixas, o conteudo dessas arcas e caixas, as passagens e os sotaos, o vazio poeirento sob a cupula onde faziam ninho centenas de morcegos, as caves e subcaves que eram as antecamaras dos corredores da escuridao.

As maos e as mangas perfumadas com a seca docura de almiscar que se tornara em po nas oito centenas de anos em que ficara numa arca, a fronte marcada pelo negro pegajoso de uma teia de aranha, chegava a ficar uma hora ajoelhada a estudar as figuras gravadas num belo cofre de cedro que o tempo degradara, oferta de algum rei, eras antes, aos Poderes Inominados dos Tumulos. E ali estava o rei, uma minuscula figura rigida com um grande nariz, ali estava a Sala do Trono com a sua abobada achatada e as suas colunas no portico, tudo gravado em delicado relevo por algum artista que havia muitos seculos era apenas po. Ali estava a Gra- Sacerdotisa, aspirando os fumos estupefacientes dos tabuleiros de bronze e profetizando ou aconselhando o rei, cujo nariz nesta cena estava partido. O rosto da Sacerdotisa era demasiado diminuto para se verem claramente as feicoes mas Arha imaginava que esse rosto fosse o seu. E ficava a pensar o que teria dito ao rei e se ele lhe ficara grato.

Arha tinha sitios favoritos na Mansao do Trono, tal como qualquer pessoa poderia ter lugares favoritos numa casa clara e bem iluminada pelo sol. Ia muitas vezes ate umas pequenas aguas-furtadas acima de um dos quartos de vestir nas traseiras da Mansao. Ali se guardavam antigos vestidos e outros trajes, vindos dos tempos em que grandes reis e senhores vinham prestar o seu culto no Lugar dos Tumulos de Atuan, assim reconhecendo um poder maior que o seu ou de qualquer homem. Por vezes as suas filhas, as princesas, tinham envergado estas macias sedas brancas, recamadas de topazios e escuras ametistas, e dancado com as Sacerdotisas dos Tumulos. Havia pequenas mesas de marfim, pintadas, numa das salas de tesouro, representando uma dessas dancas, com os senhores e os reis a espera fora da Mansao, porque, entao como agora, homem algum pisava jamais o solo dos Tumulos. Mas as donzelas podiam entrar e dancar com as Sacerdotisas, vestidas de seda branca. A Sacerdotisa, essa, vestia-se com tecido grosseiro, de fabrico caseiro, sempre negro, entao como agora. Mas Arha gostava de vir passar os dedos pelo pano suave, apodrecido com os anos, pelas impereciveis pedras preciosas que, pelo seu proprio peso, se iam desprendendo do tecido. Havia um aroma naquelas arcas diferente de todas as essencias e incensos dos templos do Lugar. Um aroma mais fresco, mais sutil, mais jovem.

Nas salas de tesouro era capaz de passar toda uma noite a estudar o conteudo de uma unica arca, joia por joia, as armaduras enferrujadas, as plumas quebradas dos elmos, as fivelas e alfinetes e broches, de bronze, de prata, de ouro macico.

Mochos, indiferentes a sua presenca, permaneciam pousados nas vigas, abrindo e fechando os olhos amarelos. Por entre as telhas escoava-se um pouco de luz das estrelas. Ou entao era a neve que vinha caindo como de um crivo, fina e fria como aquelas antigas sedas que se faziam em nada ao toque das maos.

Em certa noite, ia o Inverno ja bem avancado, Arha sentiu que estava demasiado frio na Mansao. Foi ate ao alcapao, ergueu-o, rodou o corpo para alcancar os degraus e fechou o alcapao sobre si. Comecou a percorrer silenciosamente o caminho que tao bem conhecia agora, a passagem para o Subtumulo. Ali, e claro, nunca levava luz. Se trazia uma lanterna, de ter ido ao Labirinto ou entrado de noite pelo campo aberto, apagava-a antes de chegar proximo do Subtumulo. Ela nunca vira esse lugar, nunca em todas as geracoes do seu sacerdocio. Entrando na passagem, soprou a vela da lanterna que trazia e, sem abrandar o andamento, seguiu em frente naquele negrume de breu, tao facilmente como um peixinho em aguas turvas. Aqui, fosse Inverno ou Verao, nao havia frio nem calor. Era sempre o mesmo fresco, um pouco umido, imutavel. La por cima, os fortes e gelidos ventos do Inverno varriam uma neve fina por sobre o deserto. Mas ali nao havia vento, nao havia estacao. Era fechado, calmo, seguro.

Arha encaminhava-se para a Sala Pintada. Gostava por vezes de ali ir e estudar os estranhos desenhos que o bruxulear da sua lanterna arrancava a escuridao. Eram homens com longas asas e grandes olhos, serenos e taciturnos. Ninguem lhe podia dizer de quem se tratava, pois nao havia mais pinturas assim em lado algum do Lugar, mas ela julgava saber o que eram. Os espiritos dos condenados, que nao voltam a nascer. A Sala Pintada ficava no Labirinto, de modo que ela tinha de passar primeiro pela caverna sob as Pedras Tumulares. Ao aproximar-se, descendo a passagem inclinada, um vago cinzento como que desabrochou, nao mais que uma leve sugestao de brilho, eco do eco de uma luz distante.

Julgou que os olhos lhe estivessem a pregar uma partida, como tantas vezes acontecia naquele negrume absoluto. Fechou-os, pois, e o brilho desapareceu. Abriu-os e o brilho voltou.

Deixara de caminhar e ficara imovel. Cinzento, nao negro. Um fio palido e mortico, apenas visivel, onde nada podia ser visivel, onde tudo devia ser negro.

Deu uns poucos passos em frente e estendeu a mao para aquele angulo da parede do tunel. E, infinitamente indistinto, viu o movimento da sua mao.

Continuou em frente. Aquilo era estranho para la do pensamento, para la do temor, aquele infimo desabrochar de luz onde luz alguma jamais existira, no mais profundo sepulcro da escuridao. Prosseguiu sem fazer ruido, os pes nus, vestida de negro. Antes da ultima volta do corredor deteve-se. Depois, muito lentamente, deu o ultimo passo, olhou, viu.

Viu o que nunca vira, embora tivesse vivido uma centena de vidas. A grande caverna abandonada sob as Pedras Tumulares, que nao fora escavada por maos humanas mas pelos poderes da Terra. Surgia enriquecida de cristais, ornamentada com pinaculos e filigranas de calcario branco onde as aguas subterraneas tinham agido, desde ha eras. Imensa, com teto e paredes resplandecendo, cintilante, delicada e intrincada, um palacio de diamantes, uma casa de ametista e cristal, de onde a antiquissima escuridao fora arrancada por inaudita magnificencia.

Nao que fosse muito brilhante a luz que obrara aquela maravilha, mas mesmo assim ofuscante para um olhar habituado ao escuro. Era um clarao suave, como um fogo-fatuo, que se movia lentamente atraves da caverna, arrancando milhares de reflexos cintilantes do teto ornado de gemas e fazendo ondular milhares de sombras fantasticas ao longo da paredes esculpidas.

A luz ardia na ponta de um bordao de madeira, sem fumo, sem o consumir. O bordao era seguro por mao humana. Arha viu o rosto ao lado da luz. Um rosto escuro. O rosto de um homem.

Nao se moveu.

Durante muito tempo, o homem atravessou e voltou a atravessar a vasta caverna. Movia-se como se procurasse alguma coisa, espreitando para tras das arrendadas cataratas de pedra, estudando os varios corredores que se abriam para fora do Subtumulo mas sem neles penetrar. E ainda imovel permanecia a

Вы читаете Os Tumulos de Atuan
Добавить отзыв
ВСЕ ОТЗЫВЫ О КНИГЕ В ИЗБРАННОЕ

0

Вы можете отметить интересные вам фрагменты текста, которые будут доступны по уникальной ссылке в адресной строке браузера.

Отметить Добавить цитату