era muito mais desviado, milhas mais longo talvez. Arha esquecera isso. E por certo o estranho estava cansado, nao podia andar depressa. Talvez esquecesse as indicacoes que lhe dera e virasse onde nao devia. Poucas pessoas conseguiam, como ela, reter indicacoes depois de as ouvir so uma vez. Talvez ele nem sequer entendesse a lingua em que ela falava. Pois se assim fosse, que fosse vagueando ate cair e morrer no meio da escuridao, o idiota, o estranho, o infiel. Que o seu fantasma gemesse pelas estradas de pedra dos Tumulos de Atuan ate que o negrume mesmo isso devorasse…
Na manha seguinte, muito cedo, apos uma noite de pouco sono e maus sonhos, Arha regressou ao orificio de observacao no pequeno templo. Olhou para baixo e nada viu. Negrume. Fez descer uma vela acesa numa pequena lanterna de estanho suspensa de uma corrente. Ele estava ali, na Sala Pintada. Viu, para la do halo de luz da vela, as pernas do estranho, uma mao inerte. Falou para dentro do orificio, que era grande, tanto como todo um dos ladrilhos do soalho, chamando:
— Feiticeiro!
Nao houve movimento. Estaria morto? Teria sido aquela toda a forca que houvera nele? Sorriu trocistamente. Sentiu o coracao bater mais rapido. «Feiticeiro!», bradou, com a voz a retinir na camara oca por baixo dela. O estranho moveu-se e, lentamente, endireitou o tronco e olhou em volta, confuso. Um pouco depois, ergueu o rosto, pestanejando perante a pequena lanterna que balancava, suspensa do teto. O seu rosto estava terrivel de se ver, inchado e escuro como o de uma mumia.
Estendeu a mao para o bordao que jazia no solo junto dele, mas nao houve luz alguma que desabrochasse na madeira. Nao havia ja poder nele.
— Queres ver o tesouro dos Tumulos de Atuan, feiticeiro?
Ele olhou cansadamente para cima, semicerrando os olhos para a luz da lanterna que era tudo o que conseguia ver. Pouco depois, com uma careta que poderia ter-se iniciado como sorriso, assentiu com um unico movimento de cabeca.
— Sai desta sala e volta a direita. Segue o primeiro corredor para a esquerda… — e foi desbobinando a longa serie de indicacoes sem fazer uma unica pausa. No fim, disse: — Ai vais encontrar o tesouro que te trouxe aqui. E la, talvez encontres agua. O que e que preferias ter agora, feiticeiro? O tesouro ou a agua?
Amparando-se ao bordao, o estranho pos-se de pe. Olhando para cima com olhos que nao podiam ve-la, tentou dizer qualquer coisa mas nao havia voz na sua garganta seca. Encolheu ligeiramente os ombros e saiu da Sala Pintada.
Ela nao lhe daria agua alguma. De qualquer maneira, o estranho nunca conseguiria dar com o caminho para a camara do tesouro. As indicacoes eram demasiado extensas para ele as poder decorar. E, ainda que la chegasse, havia o Poco. Ele agora estava na escuridao. Ia perder-se, acabaria por cair, morreria nalgum lado daquelas camaras estreitas, ocas e secas. E Manane encontra-lo-ia, arrasta-lo-ia ca para fora. E esse seria o fim. Arha agarrou com ambas as maos as beiras do orificio de observacao e pos-se a balancar o corpo agachado para tras e para a frente, para tras e para a frente, mordendo o labio inferior como se tentasse suportar alguma terrivel dor. Ela nao lhe daria agua alguma. Nao, nao lhe daria agua alguma. Dar-lhe-ia morte, morte, morte, morte, morte…
Nessa hora cinzenta da sua vida, Kossil veio ter com ela, penetrando na camara do tesouro com passos pesados, volumosa nas suas negras roupas de Inverno.
— O homem ja esta morto?
Arha ergueu a cabeca. Nao havia lagrimas nos seus olhos, nada a esconder.
— Julgo que sim — respondeu, levantando-se e sacudindo a poeira das saias. — A sua luz extinguiu- se.
— Pode ser algum truque. Os sem-alma sao muito matreiros.
— Esperarei um dia para ter a certeza.
— Sim, ou talvez dois. Depois Duby pode ir la abaixo e traze-lo. E mais forte que o velho Manane.
— Mas Manane esta ao servico d’Aqueles-que-nao-tem-Nome e Duby nao. Ha lugares dentro do Labirinto onde Duby nao deve entrar e o ladrao esta num deles.
— Mas, nesse caso, ja esta profanado e…
— Com a morte dele la, voltara a ficar purificado — atalhou Arha. Pela expressao de Kossil, percebeu que devia haver algo de estranho na sua propria expressao. — E este e o meu dominio, sacerdotisa. Tenho de o cuidar tal como os meus Senhores me ordenam. Nao preciso de mais licoes sobre morte.
O rosto de Kossil pareceu recuar para dentro do capuz negro, como uma tartaruga do deserto a meter a cabeca na carapaca, fria, lenta e amarga.
— Muito bem, senhora.
Separaram-se em frente ao altar dos Irmaos-Deuses. Agora sem pressas, Arha encaminhou-se para a Casa Pequena e chamou Manane para que a acompanhasse. Desde que falara com Kossil, sabia o que havia a fazer.
Ela e Manane subiram juntos a Colina, entraram na Mansao, desceram ao Subtumulo. Segurando o longo puxador e unindo esforcos, abriram a porta de ferro do Labirinto. Ai, acenderam as lanternas e entraram. Com Arha a abrir o caminho, seguiram ate a Sala Pintada e dai iniciaram a marcha para a Grande Camara do Tesouro.
O ladrao nao conseguira ir muito longe. Nao tinham caminhado ainda quinhentos passos no seu tortuoso percurso quando deram com ele, amarfanhado no chao do estreito corredor, como um monte de farrapos deitados para ali. Antes de tombar, deixara cair o bordao que ficara a uma certa distancia. Tinha sangue na boca e os olhos semicerrados.
— Esta vivo — disse Manane ajoelhando e colocando a grande mao amarela no pescoco escuro, a sentir as pulsacoes. — Queres que o estrangule, senhora?
— Nao. Quero-o vivo. Pega-o e traga-o contigo.
— Vivo? — exclamou Manane, confundido. — Para que, senhorazinha?
— Para ser escravo dos Tumulos! Para de falar e faz o que te mando.
Com o rosto mais melancolico que nunca, Manane obedeceu, lancando sem esforco o corpo do jovem para cima do ombro, como um saco comprido. Assim carregado, seguiu Arha com passos vacilantes. Mas nao podia ir muito longe e de uma so vez com semelhante peso. Pararam uma duzia de vezes no caminho de regresso para Manane recuperar o folego. A cada alto, o corredor era o mesmo: as pedras de um amarelo acinzentado, bem unidas e erguendo-se a formar a abobada, o desigual chao de rocha, o ar parado, morto. Manane grunhindo e ofegando, o estranho totalmente inerte, as duas lanternas ardendo numa cupula de luz que se ia estreitando e desaparecendo na escuridao do corredor, em ambas as direcoes. A cada parada, Arha deitava umas gotas da agua que trouxera num cantil na boca seca do homem, pouco de cada vez, nao fosse a vida, ao retornar, mata- lo.
— Para a Sala das Correntes? — perguntou Manane, enquanto estavam na passagem que conduzia a porta de ferro. E, perante esta pergunta, Arha pensou pela primeira vez para onde deveria levar o prisioneiro. Nao sabia.
— Nao, para ai, nao — respondeu, mais enojada que nunca pela recordacao do fumo e do fedor, dos rostos barbudos, sem fala, cegos. E Kossil poderia vir a Sala das Correntes. — Ele, ele tem de ficar no Labirinto, para que nao possa recuperar a sua feiticaria. Onde havera uma camara?…
— A Sala Pintada tem porta, fechadura e um orificio de observacao, senhora. Se tens a certeza de que ele nao consegue abrir portas…
— Ele aqui nao tem poderes. Leva-o para la, Manane.
E assim Manane voltou para tras com a sua carga, percorrendo uma boa metade do caminho ja feito, demasiado atarefado e sem folego para protestar. Quando finalmente entraram na Sala Pintada, Arha tirou o seu longo manto de Inverno, em la, e estendeu-o no chao empoeirado.
— Deita-o ai — disse.
Manane olhou a cena com consternada melancolia, arquejando:
— Senhorazinha…
— Eu quero que o homem viva, Manane. E de outra maneira vai morrer de frio. Olha como treme.
— O teu vestuario vai ficar profanado. O vestuario da Sacerdotisa. Ele e um infiel. E um homem — proferiu atrapalhadamente Manane, franzindo os olhos pequeninos como se lhe doesse alguma coisa.
— Entao eu mando queimar o manto e tecer outro! Va la, Manane!
