ofendi, peco-te perdao.
Arha permaneceu em silencio e, num momento, sentiu o sangue subir-lhe as faces, quente e insensato. Mas ele nao estava a olha-la e nao a viu corar. Obedecera e desviara dela os escuros olhos.
Por algum tempo, nenhum deles voltou a falar. As figuras pintadas ao seu redor observavam-nos com olhos tristes, cegos.
Arha trouxera um jarro de pedra cheio de agua. Os olhos do estranho desviavam-se para ai constantemente e, dai a pouco, ela disse:
— Bebe, se quiseres.
Sem mais delongas, o homem lancou-se para o jarro e, erguendo-o tao facilmente como se fosse uma taca de vinho, bebeu uma longa, muito longa golada. Depois, molhou uma extremidade da manga e, o melhor que lhe foi possivel, limpou a sujidade, o sangue coalhado e as teias de aranha do rosto e das maos. Levou algum tempo a fazer isto, com a rapariga a observa-lo. Depois de terminar, ficou com melhor aspecto, mas o seu banho a gato pusera a descoberto as cicatrizes de um dos lados da cara. Velhas cicatrizes, de ha muito curadas, branquejando na sua pele escura, quatro vincos paralelos do olho ao maxilar inferior, quais sulcos deixados por enorme garra.
— O que e isso? — perguntou Arha. — Essa cicatriz.
Ele nao respondeu logo.
— Algum dragao? — insistiu ela, tentando trocar. Pois nao viera ela ali para escarnecer da sua vitima, para o atormentar com a sua impotencia?
— Nao. Nao foi um dragao.
— Mas entao nao es, ao menos, um senhor de dragoes?
— Nao e isso — respondeu ele relutantemente. — Eu
— Que queres dizer? Que nome?
— Isso nao te posso dizer — respondeu ele e sorriu, embora o seu rosto permanecesse grave.
— Tudo isso e disparate, conversa de tolos, sacrilegio. Eles sao Aqueles-que-nao-tem-Nome! Nao sabes de que estas a falar…
— Sei ainda melhor do que tu, Sacerdotisa — contrapos ele, a voz mais grave ainda. — Olha melhor! — E voltou a cabeca para que ela pudesse ver bem as quatro terriveis marcas que lhe sulcavam a face.
— Nao te acredito — disse ela, mas a sua voz tremeu.
— Sacerdotisa — continuou o homem suavemente —, nao tens muita idade. Nao podes servir os Tenebrosos ha muito tempo.
— Mas sirvo. Ha muito! Eu sou a Primeira Sacerdotisa, a Renascida. Servi os meus senhores durante mil anos e outros mil anos antes desses. Sou a sua serva e a sua voz e as suas maos. E sou a sua vinganca sobre aqueles que profanam os Tumulos e lancam o olhar sobre o que nao e para ser visto! Para com as tuas mentiras e fanfarronadas. Pois nao ves que se eu disser uma palavra que seja, o meu guarda vira e cortar-te-a a cabeca dos ombros? Ou, se me for embora e fechar esta porta, entao ninguem aqui vira, nunca, e morreras aqui, na escuridao, e aqueles que eu sirvo comerao a tua carne e a tua alma e deixarao os teus ossos no meio da poeira?
Tranquilamente, ele assentiu com um aceno de cabeca. Arha gaguejou e, nao encontrando mais nada que dizer, saiu da sala como um pe de vento, fechando a porta atras de si com estrondo. Deixa-lo pensar que ela nao voltaria mais! Deixa-lo suar, no meio da escuridao, deixa-lo praguejar e tremer e tentar lancar os seus nojentos e inuteis bruxedos!
Porem, com os olhos da mente, ela via-o estender-se no chao para dormir, tal como o vira junto a porta de ferro, sereno como um cordeiro num prado banhado pelo sol.
Ela cuspiu na porta trancada, fez o sinal para afastar a profanacao e, quase correndo, dirigiu-se para o Subtumulo.
Enquanto seguia ao longo da parede a caminho do alcapao na Mansao, os seus dedos iam perpassando pelos delicados planos e tracados de rocha, como renda gelada. Percorreu-a uma ansia de acender a lanterna, para uma vez mais voltar a ver, nem que fosse por um momento, a pedra trabalhada pelo tempo, o maravilhoso brilho das paredes. Cerrou os olhos com toda a forca e apressou o passo.
7. O GRANDE TESOURO
Nunca os rituais e deveres do dia lhe tinham parecido tantos, nem tao triviais, nem tao compridos. As garotinhas com os seus palidos rostos e as suas maneiras furtivas, as novicas turbulentas, as sacerdotisas cujo aspecto era frio e severo, mas cujas vidas eram um secreto emaranhado de invejas e lamentacoes, de pequenas ambicoes e paixoes estereis — todas essas mulheres entre as quais sempre vivera e que constituiam para ela o mundo humano, pareciam-lhe agora a um tempo deploraveis e entediantes.
Mas ela que servia grandes poderes, ela que era sacerdotisa da sinistra Noite, ela estava livre de tal mesquinhez. Ela nao tinha de se ocupar com a torturante mesquinhez da sua vida comum, dos dias em que a grande delicia era conseguir mais uma colherada de gordura de borrego em cima das lentilhas que a vizinha de mesa… Nao, ela estava livre dos dias, de todos eles. No subsolo nao havia dias. Era sempre e so noite.
E naquela noite sem fim, o prisioneiro. O homem de pele escura, praticante de escuras artes, envolto em ferro e preso a pedra, a espera que ela viesse ou nao viesse, a trazer-lhe agua e pao e vida, ou uma faca e a tigela do magarefe e a morte, como muito bem lhe aprouvesse.
Ela nao falara a ninguem do homem, senao a Kossil, e Kossil nao falara a mais ninguem. Havia ja tres noites e tres dias que ele se encontrava na Sala Pintada e ela ainda nada perguntara a Arha sobre o prisioneiro. Talvez presumisse que estava morto e que Arha encarregara Manane de levar o corpo para a Sala dos Ossos. Nao era costume de Kossil aceitar qualquer coisa como certa sem mais aquelas. Porem, Arha dizia para si propria que nada havia de estranho no silencio da outra mulher. Kossil queria que tudo se passasse em segredo e odiava ter de fazer perguntas. Alem disso, Arha dissera-lhe que nao se metesse nos seus assuntos. Kossil estava simplesmente a obedecer.
Contudo, como se julgava que o homem estivesse morto, Arha nao podia pedir comida para ele. Assim, para alem de roubar algumas macas e cebolas secas das caves da Casa Grande, ela prescindiu de comer. Mandou que lhe enviassem as refeicoes da manha e da tarde para a Casa Pequena, sob o pretexto de que desejava comer sozinha, e todas as noites levava a comida ate a Sala Pintada no Labirinto, tudo menos a sopa. Estava habituada a jejuar desde um ate quatro dias e aquilo nao lhe pareceu nada demais. O individuo no Labirinto comia os seus frugais quinhoes de pao, queijo e feijoes como um sapo come uma mosca: zas! ja esta. Era evidente que podia devorar cinco ou seis vezes mais. Mas agradecia-lhe sobriamente, como se fosse seu hospede e ela a anfitria a uma dessas mesas de que ela ouvira falar em descricoes de festas no palacio do Rei-Deus, mesas postas com carnes assadas, pao barrado com manteiga, vinho servido em tacas de cristal. O estranho era muito estranho.
— Como e que e nas Terras Interiores?
Arha trouxera ali para baixo um pequeno banco de pernas em cruz, feito de marfim, para nao ter de ficar em pe enquanto o interrogava, mas tambem sem ter de se sentar no chao, ao nivel dele.
— Bom, ha muitas ilhas. Quatro vezes quarenta, diz-se, so no Arquipelago. E depois ha as Estremas. Jamais homem algum navegou por todas as Estremas ou contou todas as terras. E cada uma e diferente de todas as outras. Mas talvez a mais bela entre todas seja Havnor, a grande terra no centro do mundo. E no coracao de Havnor, numa vasta baia cheia de navios, fica a cidade de Havnor. As torres da cidade sao construidas de marmore branco. A casa de cada principe e de cada mercador tem a sua torre, de maneira que elas se erguem, umas acima das outras. Os telhados das casas sao em telha vermelha e todas as pontes sobre os canais sao cobertas de mosaico, vermelho, azul e verde. E os pendoes dos principes sao de todas as cores, flutuando no cimo das torres brancas. Na mais alta de todas as torres esta colocada, como um pinaculo, erguida para o ceu, a Espada de Erreth-Akbe. Quando o Sol se ergue sobre Havnor e sobre a sua lamina que primeiro brilha e, quando
