— Tem alguma luz?

— Tem.

— E agua?

— Um cantil pequeno e que ja nao esta cheio.

— A vela ja se lhe tera esgotado — ponderou Kossil. — Quatro ou cinco dias. Talvez seis. Depois podes mandar os meus vigilantes la abaixo para trazerem o corpo. O sangue deve ser derramado em oferta ao Trono e o…

— Nao — interrompeu Arha com subita ferocidade na voz aguda. — Quero encontra-lo vivo.

Do alto da sua grande estatura, a sacerdotisa olhou para baixo, para a rapariga.

— Porque?

— Para o fazer… para o fazer levar mais tempo a morrer. Ele cometeu sacrilegio contra Aqueles-que-nao- tem-Nome. E profanou com luz o Subtumulo. Veio para despojar os Tumulos dos seus tesouros. Deve ser punido com alguma coisa pior que ser deixado para morrer, sozinho, dentro de um tunel.

— Sim — pronunciou Kossil como se estivesse a considerar o assunto. — Mas como ira a minha senhora apanha-lo? Nao e uma coisa certa e segura. Da outra maneira nao ha incerteza nenhuma. Nao existe uma camara cheia de ossos algures no Labirinto? Ossos de homens que la entraram e nao voltaram a sair?… Deixa a sua punicao ao cuidado d’Aqueles-que-nao-tem-Nome, a sua propria maneira, nos seus proprios caminhos, os caminhos negros do Labirinto. E uma morte bem cruel, a sede.

— Bem sei — retorquiu a rapariga.

Virou costas e saiu para a noite, tapando a cabeca com o capuz contra o vento gelado e silibante. Ah, se sabia…

Fora infantil da parte dela, e estupido, vir ter com Kossil. Dali nao lhe podia vir ajuda. A propria Kossil nao sabia nada, a nao ser esperar friamente a morte. Ela nao entendia. Nao via que o homem tinha de ser encontrado. Nao deveria ser como com aqueles outros. Ela nao podia voltar a suportar tal coisa. Dado que a morte tinha de ser dada, que fosse rapida e a luz do dia. Decerto seria mais apropriado que este ladrao, o primeiro homem em seculos suficientemente corajoso para tentar assaltar os Tumulos, morresse sob o fio da espada. Se ele nem sequer tinha uma alma imortal para voltar a nascer. O seu fantasma arrastar-se-ia gemendo pelos corredores. Nao, nao se podia deixa-lo a morrer de sede, ali sozinho, na escuridao.

Nessa noite Arha pouco dormiu e o dia foi cheio de rituais e tarefas. Passou a noite seguinte a andar, silenciosa e sem lanterna, de um orificio de observacao para outro em todos os escuros edificios do Lugar e na colina varrida pelo vento. Finalmente dirigiu-se a Casa Pequena para se deitar, duas ou tres horas antes do amanhecer, mas nem entao conseguiu repousar. No terceiro dia, ao fim da tarde, encaminhou-se sozinha na direcao do deserto, para junto do rio que corria agora com baixo caudal devido a seca de Inverno, com gelo entre os juncos da margem. Viera-lhe a memoria a recordacao de uma vez em que, no Outono, se internara ate muito longe no Labirinto, para alem do cruzamento dos Seis-Caminhos e, indo sempre por um longo corredor em curva, ouvira por tras da pedra o som de agua a correr. Nao seria provavel que um homem sedento, viesse por ali, la se deixasse ficar? Mesmo aqui tao longe havia orificios de observacao. Teve de os procurar, mas Thar mostrara-lhe cada um deles, no ano anterior, e voltou a encontra-los sem muito trabalho. A sua memoria de lugar e forma era como a de uma pessoa cega. Mais parecia apalpar o seu caminho ate cada sitio oculto do que procura-lo com a vista. No segundo orificio, o que ficava mais longe dos Tumulos que qualquer outro, quando levantou o capuz para tapar a luz e chegou um olho ao buraco aberto numa superficie plana de rocha, viu abaixo de si o brilho quase extinto da luz enfeiticada.

Ali estava o estranho, meio fora de vista. O orificio dava precisamente para o fim daquele beco sem saida. So conseguia ver-lhe as costas, o pescoco dobrado e o braco direito. Estava sentado perto do ponto onde as paredes se encontravam e ia picando as pedras com a sua faca, uma especie de curta adaga de aco com um punho encastoado de pedras preciosas. A lamina estava quebrada. A ponta partida jazia no chao diretamente por baixo do orificio de observacao. Quebrara-a ao tentar afastar as pedras para chegar a agua que ouvia correr, claramente e rumorejante naquela quietude mortal sob a terra, do outro lado da parede impenetravel. Os seus movimentos eram apaticos. Estava muito diferente, depois daquelas tres noites e tres dias, da figura que ela vira agil e calma perante a porta de ferro, rindo da sua propria derrota. Continuava igualmente obstinado, mas o poder retirara-se dele. Nao dispunha de encantamento que desviasse aquelas pedras. Em vez disso, tinha de usar a sua inutil faca. Mesmo a sua luz de bruxedo era agora palida e indistinta. Enquanto Arha o observava, a luz vacilou, a cabeca do homem ergueu-se com uma sacudidela e ele deixou cair a adaga. Mas logo, obstinadamente, voltou a apanha-la e tentou introduzir a forca a lamina entre as pedras.

Estendida no meio dos juncos unidos pelo gelo, inconsciente de onde estava e do que fazia, Arha levou a boca a fria abertura da rocha e pos as maos em concha ao redor dos labios para aprisionar o som.

— Feiticeiro! — chamou. E a sua voz, deslizando por aquela garganta de pedra, foi sibilar friamente no tunel subterraneo.

O homem sobressaltou-se e pos-se atabalhoadamente de pe, saindo assim do angulo de visao dela quando o voltou a procurar. A rapariga voltou a encostar a boca ao orificio e disse:

— Volta ao longo da parede do rio ate a segunda volta. Na primeira seguinte voltas a direita, passas uma e outra vez a direita na outra. Nos Seis-Caminhos, mais uma vez a direita. Depois a esquerda, a direita, a esquerda e a direita. Deixa-te ficar ai, na Sala Pintada.

Ao mover-se para voltar a espreitar, Arha deve ter deixado entrar um raio de luz do exterior atraves do orificio e para dentro do tunel porque, quando olhou, ele estava de novo dentro do seu angulo de visao e de olhos erguidos para a abertura. O seu rosto, que ela verificava agora estar marcado por cicatrizes, tinha uma expressao tensa e ansiosa. Os labios estavam secos e enegrecidos, os olhos brilhantes. Ergueu o bordao aproximando cada vez mais a luz dos olhos dela. Assustada, Arha recuou, tapou o orificio com a sua tampa de rocha e o amontoado de pedras para protecao, ergueu-se e voltou rapidamente para o Lugar. Viu que tinha as maos a tremer e, de vez em quando, enquanto caminhava, era tomada por uma especie de vertigem. Nao sabia o que fazer.

Se o estranho seguisse as indicacoes que lhe dera, voltaria na direcao da porta de ferro, ate a sala das pinturas. Nao havia ali nada, nem motivo para que ele la fosse. Mas havia um orificio de observacao no teto da Sala Pintada, um bom, que se abria na sala do tesouro do templo dos Deuses Gemeos. Talvez fosse por isso que ela pensara em lhe dar tais indicacoes. Nao sabia. Por que motivo lhe falara?

Podia descer um pouco de agua para ele por um dos orificios e depois chama-lo ate esse sitio. Assim, poderia manter-se vivo por mais tempo. Enquanto a ela lhe desejasse, claro. Se lhe descesse agua e alguma comida de vez em quando, ele podia ir vivendo, vivendo, vagueando pelo Labirinto. E ela podia observa-lo pelos orificios, e dizer-lhe onde estava a agua, e as vezes engana-lo para ele ir a um sitio em vao, mas teria sempre de ir. Isso havia de o ensinar a nao trocar d’Aqueles-que-nao-tem-Nome, a nao pavonear a sua virilidade idiota na necropole dos Mortos Imortais!

Mas enquanto ele ali estivesse, a propria Arha nunca seria capaz de entrar no Labirinto. «Porque nao?», perguntou a si propria e replicou: — «Porque ele podia escapar-se pela porta de ferro que eu teria de deixar aberta atras de mim…» Mas nao conseguiria ir mais alem que o Subtumulo. A verdade e que ela tinha medo de o enfrentar. Tinha medo do seu poder, das artes que usara para entrar no Subtumulo, do bruxedo que mantinha viva aquela sua luz. E no entanto, haveria razao para tanto temer tais coisas? Os poderes que imperavam nos lugares da escuridao estavam do lado dela, nao dele. Era evidente que ali, no dominio d’Aqueles-que-nao-tem- Nome, o estranho nao podia fazer muita coisa. Nao conseguira abrir a porta de ferro. Nao conjurara comida magica, nem trouxera agua atraves da parede, nem fizera aparecer nenhum monstro demoniaco que deitasse abaixo as paredes, tudo coisas que temera que ele pudesse ser capaz de fazer. Nem conseguira, vagueando durante tres dias, dar com o caminho para a porta do Grande Tesouro que certamente procurara. A propria Arha nunca seguira as indicacoes de Thar ate essa camara, adiando e voltando a adiar essa jornada, por um certo temor respeitoso, uma relutancia, uma sensacao de que nao chegara ainda o momento.

E agora pensava, porque nao faria ele essa jornada por ela? O estrangeiro podia olhar tanto quanto lhe desejasse os tesouros dos Tumulos. Pelo bem que lhe podiam fazer! E ela poderia trocar dele, dizer-lhe que comesse o ouro e bebesse os diamantes.

Com a pressa nervosa, febril, que a possuira durante todos aqueles tres dias, correu para o templo dos Deuses Gemeos, abriu a pequena camara do tesouro e destapou o orificio de observacao, bem oculto no chao.

A Sala Pintada ficava por baixo, mas estava escura como breu. O caminho que o homem tinha de percorrer

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