seguranca para sempre. A outra ficou na mao do bruxo mas ele entregou-a, antes de fugir, a um rei insignificante, um dos seus rebeldes, chamado Thoreg de Hupun. Nao sei porque o tera feito.
— Para causar conflito, para envaidecer Thoreg — adiantou Kossil. — E conseguiu-o. Os descendentes de Thoreg voltaram a rebelar-se quando a casa de Tarb alcancou o poder. E uma vez mais pegou em armas contra o primeiro Rei-Deus, recusando reconhece-lo como rei ou como deus. Eram uma raca maldita, enfeiticada. Agora ja todos morreram.
Thar assentiu com um aceno de cabeca e prosseguiu:
— O pai do nosso atual Rei-Deus, o Senhor Que Se Ergueu, dominou essa familia de Hupun e destruiu-lhes os palacios. Feito isto, o meio amuleto, que eles tinham sempre conservado desde os tempos de Erreth-Akbe e de Intathin, perdeu-se. Ninguem sabe o que lhe tera acontecido. E desde entao ja passou o tempo de uma vida.
— Certamente tera sido deitado fora como lixo — sugeriu Kossil. — Dizem que nao se assemelha a nada de valor, esse Anel de Erreth-Akbe. Maldito seja ele e malditas todas as coisas da gente da magia!
E Kossil cuspiu no fogo.
— Alguma vez viste a metade que esta aqui? — perguntou Arha, voltando-se para Thar.
A mulher magra sacudiu a cabeca negativamente.
— Esta nessa sala do tesouro onde ninguem pode penetrar, a nao ser a Gra-Sacerdotisa. E talvez o maior de todos os tesouros que ali se encontram, nao sei. Mas penso que talvez seja. Durante centenas de anos, as Terras Interiores tem enviado ate aqui ladroes e feiticeiros a tentar recupera-lo. E eles passam por cofres abertos, cheios de ouro, sem parar porque procuram apenas essa unica coisa. Muito tempo passou desde que Erreth-Akbe e Intathin viveram e mesmo assim a historia continua a ser contada e voltada a contar, tanto aqui como no Ocidente. Muitas sao as coisas que envelhecem e se vao, com o passar dos seculos. Muito poucas sao as coisas preciosas que permanecem preciosas, ou as historias que continuam a ser contadas.
Depois de permanecer silenciosa e pensativa durante algum tempo, Arha observou:
— Devem ter sido homens muito corajosos, ou muito estupidos, para entrarem nos Tumulos. Nao conheciam eles os poderes d’Aqueles-que-nao-tem-Nome?
— Nao! — retorquiu Kossil na sua voz fria. — Eles nao tem deuses. Fazem magia e julgam-se eles proprios deuses. Mas nao o sao. E quando morrem, nao voltam a nascer. Tornam-se po e ossos e, durante algum tempo, os seus fantasmas gemem no vento, ate que o vento os dispersa. Nao tem almas imortais.
— Mas que magia e essa que eles fazem? — perguntou Arha, cativada. Nem sequer se lembrou de ter dito uma vez que teria virado costas e recusado olhar os navios das Terras Interiores. — Como e que fazem isso? E o que e que isso faz?
— Truques, ilusoes, prestidigitacao — foi a resposta de Kossil.
— Algo mais que isso — interpos Thar —, se e que ha ao menos uma parte de verdade nas historias. Os feiticeiros do Ocidente podem levantar e acalmar os ventos, e faze-los soprar para onde querem. Nesse ponto, todos concordam e contam a mesma historia. E por isso que sao grandes navegantes. Podem por o vento de magia nas suas velas, indo para onde desejam, e aquietar as tempestades no mar. E diz-se que podem fazer luz a seu bel-prazer, e escuridao tambem. E transformar pedras em diamantes, chumbo em ouro. E que podem construir um grande palacio ou uma cidade inteira num instante, pelo menos em aparencia. E que se podem transformar em ursos, ou peixes, ou dragoes, conforme lhes agradar.
— Nao acredito em nada disso — contrapos Kossil. — Que sao perigosos, sutis nos seus truques, escorregadios como enguias, isso sim. Mas dizem que se tirarmos o bordao de madeira a um feiticeiro, ele fica sem poder algum. Provavelmente tem runas malfazejas escritas no bordao.
Mas Thar voltou a discordar com uma sacudidela de cabeca.
— Sim, e verdade que trazem um bordao, mas e apenas um instrumento para o poder que tem dentro de si.
— Mas como alcancam o poder? — perguntou Arha. — De onde vem ele?
— Mentiras — disse Kossil.
— Palavras — emendou Thar. — Foi o que certa vez me foi dito por alguem que tinha visto um grande bruxo das Terras Interiores, um Mago, como sao chamados. Tinham-no feito prisioneiro, durante uma incursao para ocidente. Ele mostrou-lhes um pau seco e sobre ele pronunciou uma palavra. E eis senao quando, floriu. E disse outra palavra e deu macas vermelhas. E disse ainda mais uma palavra e pau, flores, macas, tudo desapareceu e o feiticeiro tambem. Com uma so palavra ele fora-se como se vai um arco-iris, num abrir e fechar de olhos, sem deixar rasto. E nunca mais o conseguiram encontrar naquela ilha. Seria isto apenas prestidigitacao?
— E facil fazer tolos dos tolos — comentou Kossil.
Thar nada mais disse, para evitar a discussao, mas Arha nao queria de maneira alguma abandonar o assunto.
— Como e que sao realmente essas gentes da magia? — perguntou. — Sao realmente todos pretos e com os olhos brancos?
— Sao pretos e abjetos. Nunca vi nenhum — respondeu Kossil com satisfacao, deslocando o seu pesado e volumoso corpo sobre o banco baixo e estendendo as maos para o fogo.
— Possam os Irmaos-Deuses mante-los longe de nos — resmungou Thar.
— Nunca mais aqui voltarao — afirmou Kossil.
E o fogo crepitou, a chuva rufou no telhado e, do lado de la da entrada sombria, soou a voz aguda de Manane, gritando:
— Aha! Uma metade para mim, uma metade!
5. LUZ SOB A COLINA
Ia o ano de novo rodando, a aproximar-se do Inverno, quando Thar morreu. No Verao, viera sobre ela uma doenca consumidora e ela, que fora magra, ficou esqueletica, ela, que fora sisuda, deixou completamente de falar. So a Arha dirigia por vezes a palavra, quando estavam apenas as duas. Mas depois ate isso acabou e foi em silencio que penetrou na escuridao. Depois de ela se ter ido, Arha sentiu-lhe dolorosamente a falta. Apesar da sua severidade, nunca fora cruel. Fora orgulho que ensinara a Arha e nao temor.
Agora, havia apenas Kossil.
Na Primavera, viria de Auabath uma nova Gra-Sacerdotisa para o Templo dos Irmaos-Deuses. Ate la, Arha e Kossil dividiam entre si o governo do Lugar. A mulher tratava a rapariga por «senhora» e devia obedecer a qualquer ordem dada por esta. Mas Arha em breve aprendeu a nao dar ordens a Kossil. Tinha o direito de o fazer, mas nao a energia, pois bem grande devia tal energia ser para enfrentar a inveja de Kossil por uma posicao superior a sua, o odio por toda e qualquer coisa que ela propria nao pudesse controlar.
A partir da altura em que Arha aprendera (com a doce Penthe) que a ausencia de fe existia, e o aceitara como uma realidade embora a assustasse, fora capaz de encarar Kossil muito mais friamente e de a entender. No seu coracao, Kossil nao tinha verdadeiro respeito por Aqueles-que-nao-tem-Nome nem pelos deuses. Para ela, de sagrado so havia o poder. O Imperador das Terras de Kargad detinha agora o poder e, portanto, a seus olhos, ele era realmente um rei-deus e servi-lo-ia bem. Mas para ela os templos nao passavam de aparencia, as Pedras Tumulares eram rochas e os Tumulos de Atuan buracos negros no solo, terriveis mas vazios. Se pudesse, poria fim ao culto do Trono Vazio. Se se atrevesse, poria fim a Gra-Sacerdotisa.
Arha conseguira encarar mesmo este ultimo fato com bastante firmeza. Talvez Thar a tivesse ajudado a ver as coisas tal como eram, embora sem nunca dizer nada abertamente. Nas primeiras fases da sua doenca, antes que o silencio se apoderasse dela, pedira a Arha que a viesse ver de poucos em poucos dias e falara com ela, contando-lhe muitas coisas acerca das acoes do Rei-Deus e do seu predecessor e de como eram as coisas em Auabath — assuntos que, sendo uma sacerdotisa importante, devia conhecer, mas que frequentemente nao eram lisonjeiros para o Rei-Deus nem para a sua corte. E falara tambem da sua propria vida e descrevera o aspecto da Arha da vida anterior e o que ela fizera. Por vezes, pouco frequentemente, mencionara tambem quais poderiam ser os perigos e dificuldades na vida presente de Arha. Nem uma vez pronunciou o nome de Kossil. Mas Arha fora discipula de Thar durante onze anos, pelo que lhe bastava uma meia palavra ou uma entoacao para perceber. E para recordar.
