Perante isto, o eunuco inclinou-se, obediente, e deixou que o prisioneiro lhe caisse do ombro para cima do manto negro, com um som surdo. O homem ficou quieto, como se estivesse morto, mas via-se uma veia latejar- lhe fortemente no pescoco e, de quando em quando, um espasmo fazia-lhe estremecer todo o corpo.
— Devia ser acorrentado — sugeriu Manane.
— Parece-te perigoso?
E Arha soltou uma gargalhada de troca. Mas quando Manane lhe apontou um anel de ferro fixo na rocha e a que o prisioneiro podia ser preso, deixou-o ir buscar uma corrente e argola a Sala das Correntes. Resmungando, o eunuco la foi pelo corredor, repetindo para si proprio as indicacoes. Ja antes fora a Sala Pintada e voltara, mas nunca sozinho.
Para Arha, a luz da sua unica lanterna, as pinturas nas quatro paredes pareciam mover-se, contorcer-se, as toscas figuras humanas com grandes asas pendentes, umas agachadas outras de pe, numa desolacao intemporal.
Ajoelhando-se, deixou a agua gotejar, muito pouco de cada vez, para dentro da boca do prisioneiro. Finalmente, ele tossiu e as suas maos ergueram-se debilmente para o cantil. Ela deixou-o beber. Depois ele deitou-se para tras, o rosto todo molhado, sujo de po e de sangue, e murmurou qualquer coisa, uma ou duas palavras numa lingua que ela nao conhecia.
Manane voltou por fim, arrastando uma corrente de aros de ferro, um grande cadeado com a respectiva chave e uma cinta de ferro com que rodeou a cintura do homem, fechando-a.
— Nao esta bem apertada. Ele e capaz de deslizar para fora — resmungou o eunuco, enquanto prendia a extremidade da corrente ao anel fixo na parede.
— Nao. Ve!
Agora com menos temor do seu prisioneiro, Arha mostrou que nao conseguia introduzir a mao entre a cinta de ferro e as costelas do homem, e acrescentou:
— A nao ser que fique em jejum muito mais que quatro dias.
— Senhorazinha — interveio Manane, queixosamente —, nao ponho em duvida, mas… que prestimo tem ele como escravo d’Aqueles-que-nao-tem-Nome? Ele e um homem, pequenina.
— E tu es um velho tonto, Manane. Va, anda dai e para com tantas preocupacoes.
O prisioneiro observava-os com os seus olhos brilhantes e fatigados.
— Onde esta o bordao dele, Manane? Ah, alem. De-me ca. Tem magia. Ah, e isto… Isto tambem levo.
E com um movimento rapido agarrou na corrente de prata que sobressaia da gola da tunica do homem e tirou-lha por cima da cabeca, embora ele tentasse agarrar-lhe os bracos e faze-la parar. Manane deu-lhe um pontape nas costas. Ela fez a corrente descrever um arco sobre ele, fora do seu alcance.
— Este e que e o teu talisma, feiticeiro? E precioso para ti? Nao parece grande coisa. Nao podias arranjar nada melhor? Vou tomar conta dele por ti.
E, passando a corrente de prata sobre a sua propria cabeca, escondeu o objeto que dela pendia sob a pesada gola do seu vestido de la.
— Tu nao sabes o que fazer com isso — pronunciou o estranho, em voz muito rouca e pronunciando mal as palavras da lingua karguiana, mas de modo suficientemente inteligivel.
Manane voltou a dar-lhe um pontape, o que o levou a emitir um pequeno rouquejo de dor e a fechar os olhos.
— Deixa-o, Manane. Vem.
Saiu do quarto e Manane, sempre resmungando, seguiu-a.
Nessa noite, quando ja todas as luzes estavam apagadas, Arha voltou a subir a colina, sozinha. Encheu o seu cantil no poco da camara atras do Trono e levou a agua, bem como um pao grande e achatado, azimo, de trigo mourisco, ate a Sala Pintada, no Labirinto. Colocou tudo ao alcance do prisioneiro, junto a porta. Ele dormia e nem se moveu. Arha regressou a Casa Pequena e nessa noite tambem ela dormiu um sono longo e repousado.
Ao principio da tarde, voltou sozinha ao Labirinto. O pao desaparecera, a agua acabara-se e o estranho estava sentado, de costas apoiadas na parede. O seu rosto ainda tinha um aspecto horrivel, com sujidade e crostas, mas a expressao era atenta.
De pe, Arha permaneceu do outro lado da camara, onde ele, acorrentado como estava, nao podia de modo algum alcanca-la, e olhou-o. Depois desviou a vista. Mas nao havia ali nada para onde olhar especialmente. Algo a impedia de falar. O coracao batia-lhe como se estivesse com medo. Mas nao havia razao para o temer. O estranho estava a sua merce.
— E agradavel ter luz — pronunciou ele na sua voz suave mas profunda, que a perturbava.
— Qual e o teu nome? — perguntou ela, decisivamente. A sua propria voz, pensou ela, soava desusadamente aguda e fina.
— Bem, na maior parte dos casos, chamam-me Gaviao.
— Gaviao? E esse o teu nome?
— Nao.
— Entao qual e o teu nome?
— Isso nao te posso dizer. Es tu a Gra-Sacerdotisa dos Tumulos?
— Sou.
— Como te chamam?
— Chamam-me Arha.
— Aquela que foi devorada. E isso o que quer dizer, nao e? — E os seus olhos escuros observavam-na intensamente. Depois esbocou um ligeiro sorriso. — Qual e o teu nome?
— Nao tenho nome. Nao me facas perguntas. De onde vens?
— Das Terras Interiores, do Ocidente.
— De Havnor?
Aquele era o unico nome de cidade ou ilha das Terras Interiores que ela conhecia.
— Sim, de Havnor.
— Porque vieste ate aqui?
— Os Tumulos de Atuan sao famosos entre o meu povo.
— Mas tu es um infiel, nao es crente.
Ele abanou a cabeca.
— Ah, nao, Sacerdotisa. Eu acredito nos poderes da treva! Ja em outros lugares me encontrei com os Sem-Nome.
— Que outros lugares?
— No Arquipelago… nas Terras Interiores… ha lugares que pertencem aos Velhos Poderes da Terra, tal como este. Mas nenhum tao grande como este. Em nenhum outro lugar tem eles um templo, uma sacerdotisa e um culto como o que recebem aqui.
Trocista, Arha perguntou:
— Entao vieste prestar-lhes culto?
— Vim para os roubar — respondeu ele.
Arha estudou-lhe o rosto grave.
— Fanfarrao! — lancou-lhe.
— Sabia que nao ia ser facil.
— Facil? E impossivel. Se nao fosses um descrente, saberias isso. Aqueles-que-nao-tem-Nome olham pelo que lhes pertence.
— O que eu busco nao e deles.
— E teu, claro?
— Meu para o reivindicar.
— Quem es, entao? Um deus? Um rei? — E relanceou-o de cima abaixo, ali sentado e preso as correntes, sujo, exausto. — Nao passas de um ladrao!
Ele nada disse mas o seu olhar encontrou o dela.
— Nao podes olhar para mim! — disse ela em voz aguda.
— Senhora — argumentou ele —, nao e minha intencao ofender-te. Sou um estranho e um transgressor. Nao conheco os vossos costumes nem a cortesia devida a Sacerdotisa dos Tumulos. Estou a tua merce e, se te
